Sentimento Crônico

Cheio de prosa! Poesia, vide verso!

Textos

Vade-retro framboesa!
 
 
          Tenho lembranças de quando eu era pequeno; muito pequeno. Boa parte delas não diz respeito a experiências das mais gratificantes.

          Uma em particular, remete a uma oportunidade, quando eu devia ter, mais ou menos, uns quatro anos e fui acometido de uma tosse infernal.  Na minha memória aquele evento durou algumas eras de existência – mas pode ter sido muito menos, talvez.

          Pior que, em muitas vezes, eu tinha um acesso de tosse tão violento e contínuo que chegava a me faltar o ar e até era acossado por náuseas que, invariavelmente, se desdobravam em vômitos.   Eu já tinha até pavor, quando começava a tossir.

          Numa época quando os recursos eram poucos e os filhos eram muitos, minha abnegada mãe tentou valer-se de uma série de receitas caseiras. E foi um tal de me encharcar com todo tipo de chá cuja composição levava limão, ou mel, ou guaco, ou tomilho... Sei lá! Deve ter sido usado até cocô de galinha.  O que sei é que, aquelas experiências alquímicas de fundo de quintal não deram muito resultado e, ao contrário, meu paladar e sistema digestivo ficavam em polvorosa a cada nova tentativa.

          Entretanto, um dia surgiu uma prestativa vizinha com um frasco de um tal xarope que seria milagroso.  Era algo industrializado e vindo de alguma farmácia e a poção tinha, como um anunciado fator positivo, sabor de framboesa.

         Minha mãe se aproximou com o frasco em uma mão e na outra uma colher com aquele líquido viscoso e meio rubro em minha direção e enfiou-me goela abaixo.  Não sei porque, de todas as tentativas, aquela foi, sem dúvida, a pior pra mim, pois mal engoli o desgraçado do xarope e vomitei logo em seguida.

          Minha mãe insistiu e, desta feita, com uma ameaçadora sandália à mão, incitou-me a “segurar” a poção nas entranhas.   Juro que chorei até arrebentar, passei tremendamente mal mas, enfim, “segurei” o maldito do remédio.

          Para consolar-me, diziam “é gostoso, tem sabor de framboesa”.  Gostoso pra quem?  Afinal, o que seria aquela tal framboesa?  Disseram-me que era uma fruta.  Porém nunca havia visto ou tido notícia dessa fruta.  Na feira, certamente, jamais existiu ao lado de bananas, laranjas, abacates, melancias e afins.

          Aquela tortura se repetiu, ao menos, três vezes ao dia por algum tempo. Só de sentir o cheiro do xarope meu estômago embrulhava e eu me punha naquele estado de autoflagelação para “segurar” aquela porcaria sem vomitar.

          Não lembro o final da história, mas parece que funcionou, até porque hoje não estou tossindo.

          Porém, desde então, qualquer coisa que remeta ao sabor ou cheiro de framboesa me causa náuseas.  Nem adianta tentar me convencer e, certamente, já não há mais minha mãe com a sandália na mão pra me obrigar a aceitar isso.

          Vade-retro framboesa!
Obed de Faria Junior
Enviado por Obed de Faria Junior em 25/05/2017
Alterado em 25/05/2017
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