Sentimento Crônico

Cheio de prosa! Poesia, vide verso!

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Brasil: o “ex país do futebol” (Crônicas da série “temas atuais”)
 
 
               Assim, como muitos, sou do tempo em que, para os brasileiros, o futebol era o tema mais importante dentre os temas sem importância na vida.

               Naquele tempo, o time do coração de cada um era composto por atletas cuja escalação se conhecia de cor e era impensável que um craque de uma agremiação fosse jogar em alguma outra sua arquirrival.

               Ainda, era uma época em que o selecionado nacional era tido como a “pátria de chuteiras” e cada jogo do “escrete canarinho” – mesmo que fosse um jogo treino – fazia o país parar. A nação brasileira, composta de milhões de técnicos, tinha lá suas preferências pessoais para cada uma das posições a serem escaladas.

               Porém, o futebol, como outras modalidades esportivas, há muito deixou de ser tratado como “esporte” e, na verdade, hoje se enquadra na categoria de “entretenimento”. Afinal, o dinheiro flui para onde haja “mercado consumidor”.  É difícil imaginar o retorno financeiro de um patrocínio para a equipe de nado sincronizado ou de tênis de mesa. São os “shows” televisivos nas transmissões esportivas que dão relevância a qualquer categoria de disputa.  Por isso os times são “marcas”, negociam “naming rights” e coisas afins.

               E, como é sabido, onde o dinheiro reina a condução das coisas é feita por interesses financeiros, negociatas e, não raramente, maracutaias de todo tipo.  O futebol, portanto, secundariamente é um esporte ou uma arte porque, agora, é primordialmente um “grande negócio”.

               Sintomático que nosso principal craque esteja envolvido em processos judiciais que questionam a transação que promoveu sua transferência para o futebol europeu.  Meu sentir é que isso só tomou esse vulto, porque os envolvidos são "estrelas na mídia”, tanto o jogador como o time para o qual se transferiu.  Tudo indica que esse tipo de estratagema aconteça de forma corriqueira com outros times e outros jogadores, mas ninguém se importa.

               Também, é notório que os times de futebol no Brasil estejam falidos em sua maioria, mas seus dirigentes sejam pessoas riquíssimas que fazem investimentos estranhos e ilógicos em nome do “amor ao esporte”. Há algo podre por trás disso.

               Técnicos e jogadores ganham verdadeiras fortunas, o que é natural porque são protagonistas desse circo.  Porém, com que isenção alguém aponta um novo talento, ou indica uma nova contratação ou, ainda, escala uma seleção nacional?  Se tudo é movido pelo dinheiro, não são o esporte, o público ou a ética que estão em primeiro plano.

               Os times de futebol brasileiros que entram em campo são desenhos na areia, porque se fazem e desfazem com uma rapidez e desfaçatez que não justifica, sequer, que haja realmente uma torcida por esta ou aquela agremiação.  O que existe são simpatias por brasões e bandeiras em função de sua história. O resto é fumaça!  Incrível que haja quem mate e morra por isso.

               A seleção brasileira de futebol é uma piada!  Não passa de um “catadão” de jogadores que estão em voga no mercado internacional e a CBF e sua comissão técnica se prestam a servir de vitrine para divulgar possíveis negócios.  A cada nova competição, é interessante o fluxo de atletas que vão e vêm ao sabor de escalações arbitrárias que não guardam senso lógico com a tática e estratégia do jogo.

               Amor à camisa e vergonha na cara não tem mais nada a ver com futebol, e o mesmo se pode dizer de técnica, talento e arte.  A crise do Brasil como estado e como nação está refletida naquilo que outrora foi a “paixão nacional”.  Nossas estruturas e instituições estão doentes e o futebol é só mais um componente infectado no meio disso.
 
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Obed de Faria Junior
Enviado por Obed de Faria Junior em 02/07/2015
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