Sentimento Crônico

Cheio de prosa! Poesia, vide verso!

Textos


Boêmio aposentado
 
 
          Outrora, a noite foi o meu habitat. E, naquele tempo, de nada valeria a noite se não fosse a boemia. Ah! A boemia! Sem ela a noite era calabouço de torturas mercê de insônias cruéis.

          Em volta de mesas de bar, na atmosfera onde os perfumes das pessoas se misturavam às fumaças dos cigarros, bebia-se para que o estado de ânimo fosse insuflado por aquele torpor hipnótico que enleva a alegria e o livre pensar. Música era fundamental, mas instrumentos e vozes eram os dos próprios boêmios que compunham show e plateia, tudo ao mesmo tempo. O flerte era jogo preferido dos amantes platônicos com paixões descartáveis.

          Era nessas rodas que brotavam a crônica falada, o ensaio filosófico sem preconceito e a poesia sem amarras. Quantos e quantos guardanapos de papel foram varridos ao fim de cada noite levando consigo os apontamentos e anotações daquelas mentes febris. Sabedoria intuitiva misturada a caldo de cultura que não deixavam registro para a posteridade. Na boemia alegrias e paixões eram efêmeras e se não o fossem perdiam um tanto daquela aura de festim que atiçava os sentidos.

          Hoje, a noite ainda existe, é claro, mas o mundo fechou cada vez mais as portas para a boemia. Há muita balada, há muita arruaça, há muito barulho, há muito sexo casual, porém – Ah! Maldito porém! – os espíritos dos cronistas, dos filósofos e dos poetas estão isolados e confinados a assépticos aposentos domésticos, postando em blogs, no twitter e no facebook porque não querem se expor a arrastões, porque não toleram fumar de pé nas calçadas e ao relento, porque se recusam a obedecer teores alcoólicos politicamente corretos e porque qualquer declaração de amor repentino e passageiro pode ser confundida com assédio.

          Eu, como muitos outros, me adaptei aos novos tempos. O boêmio que se esconde em mim está aposentado e não vê mais graça em rabiscar desvarios em guardanapos de papel porque pudicos de fachada – hipócritas de corpo e alma – limitaram os pequenos vícios sociais, inibindo a exposição das legítimas inspirações de liberdade. Existem, sim, os mais liberais, entretanto mesmo estes já não leem guardanapos rabiscados, pois só ficam com suas caras enfiadas em smartphones e tablets.

          Expulsaram a boemia e a noite ficou muito medíocre!
 
                                                 .oOo.
Obed de Faria Junior
Enviado por Obed de Faria Junior em 30/06/2015
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