Sentimento Crônico

Cheio de prosa! Poesia, vide verso!

Áudios

Ou o passo ou a posse
Data: 10/12/2010
Créditos:
"Ou o passo ou a posse"; de Obed de Faria Junior.
Gravação, edição e locução do próprio autor.
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (você deve citar a autoria de Obed de Faria Jr e o site: obed.zip.net). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


       Ou a passo ou a posse
 
          Semanas atrás fui à festa do casório de um conhecido meu. Estando por lá, todos os ingredientes desse tipo de festança estavam presentes: gente vestida de gala, arranjos e requintes e coisa e tal. Em meio a risos e cumprimentos os nubentes circulavam entre as mesas onde familiares e amigos confraternizavam com sincera efusão.

          Tudo corria às mil maravilhas e o festim seguia animado e bem servido. Todavia, para estranheza minha, a música ambiente e a pista de dança estavam relegadas a um inexplicável desprezo coletivo.  A circunstância cuidadosamente armada para que o festejo acolhesse o bailado em geral estava ali sendo ocupada pela criançada que corria atrás de balões de gás e coisas do gênero.


          Diante de tamanho desperdício, tomei meu par e fomos apenas nós, descaradamente, reconquistar os domínios da música que haviam sido tomados de assalto pela alegre, porém deslocada, fuzarca infantil.


          Preciso admitir que jamais fui um pé de valsa.  Menos ainda, ousei me aventurar nos malabarismos difundidos em profusão por esses cursos de dança de salão, que estimulam a coreografia sincronizada de passos rebuscados e que mais servem para o exibicionismo gratuito do que para o verdadeiro prazer de bailar.


          Com efeito, a dança bem conduzida serve para aproximar os corpos, permitir o contato de peles, induzir o olho no olho e o sussurro no ouvido. É um exercício erótico que se pode praticar em público e que, mesmo assim, é socialmente aceitável.


          Nunca vou compreender porque há quem se perca na exibição do domínio egoísta do passo próprio em detrimento do doce exercício da excitante posse do corpo alheio.


          E lá fomos nós, casal apartado da turba, flutuar no dois pra lá dois pra cá, fazendo-nos condutores vivos da energia nada estática que só os ritmos, sons e melodias podem transmitir. Quanto ao mais dos circunstantes, nada posso dizer, porque o ambiente em volta se diluiu enquanto submergimos no transe de estarmos juntos nos roçando em fantasia.


          A festa foi boa! Serviu-nos de preliminar e o pós-festa foi melhor ainda! 

                                                   .oOo.                                     

Enviado por Obed de Faria Junior em 09/12/2010

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